23 Mar
Agência FAPESP
Céu azul? Nem tanto. Pelo menos não como costumava ser há apenas três décadas, segundo pesquisa publicada nesta sexta-feira (13/3) pela revista Science.
O estudo, feito por pesquisadores das universidades de Maryland e do Texas, nos Estados Unidos, analisou dados de concentrações de aerossóis desde 1973 e apontou que a visibilidade sobre os continentes tem caído seguidamente.
Aerossóis são partículas sólidas ou líquidas em suspensão na atmosfera, que podem ser, por exemplo, fuligem, poeira e partículas de dióxido de enxofre. Ou seja, poluição, principalmente derivada da queima de combustíveis fósseis.
Segundo o estudo, está justamente na poluição promovida pelo homem o maior motivo para que o céu sobre a superfície terrestre não esteja tão visível hoje como há 36 anos.
Kaicun Wang, da Universidade de Maryland, e colegas analisaram as concentrações de aerossóis e a profundidade óptica, isto é, a visibilidade em céu aberto.
Os pesquisadores verificaram que em todos os continentes a visibilidade piorou, com exceção da Europa, onde a situação está melhor do que em 1973, sinal de que as medidas antipoluição têm surtido efeito no continente.
Os dados foram obtidos de 3.250 estações meteorológicas em todo o mundo, compiladas pelo Centro Nacional de Dados Climáticos dos Estados Unidos. Também foram usados registros feitos por satélites. Visibilidade foi considerada a distância que um observador consegue ver com clareza a partir de um determinado ponto – quanto mais aerossóis estão
presentes no ar, menor a distância vista.
Em 58% das estações, a queda na visibilidade foi pelo menos cinco vezes maior do que na média mundial. Segundo os autores do estudo, o cenário mais grave está na Ásia, onde a visibilidade caiu principalmente na última década.
“É a primeira vez que conseguimos informações globais de longo prazo a respeito de aerossóis sobre a superfície terrestre, que se somam aos dados já existentes sobre os oceanos. A base que reunimos se configura em um importante passo à frente na pesquisa sobre mudanças de longo prazo na poluição do ar e na correlação desse fator com as mudanças climáticas”, disse Wang.
Aerossóis afetam a temperatura superficial da Terra ao refletir a luz solar de volta ao espaço – reduzindo a radiação na superfície – ou ao absorver a radiação, aquecendo a atmosfera. Os efeitos de esfriamento e aquecimento promovidos pelas partículas suspensas modificam as formações de nuvens e de chuvas.
Diferentemente dos aerossóis, o dióxido de carbono e outros gases, apesar de causadores do efeito estufa, são transparentes e não afetam a visibilidade.
O artigo Clear sky visibility has decreased over land globally from 1973 to 2007, de Kaicun Wang e outros, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag. org.
17 Mar
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17 Mar
Por Thalif Deen, da IPS
Nova York – A Organização das Nações Unidas alertou que mais da metade da população mundial – mais de três bilhões de pessoas – sofrerá escassez de água em 2025. Se as atuais tendências continuarem, incluindo as secas, o aumento populacional, a crescente urbanização, a mudança climática, a proliferação indiscriminada do lixo e a má administração dos recursos, o mundo se dirigirá para uma catástrofe. Estes novos problemas estarão na agenda de uma importante conferência internacional, o Quinto Fórum Mundial da Água, que acontecerá em Istambul, Turquia, entre 16 e 22 deste mês.
Entrevistado pela IPS, o diretor-geral do Conselho Mundial da Água (CMA), Ger Bergkamp, que organiza o encontro em Istambul, disse que enquanto a população do planeta triplicou no século XX, o uso de recursos renováveis de água cresceu seis vezes. “Nos próximos 50 anos, a população mundial crescerá 40% ou 50%. Este aumento populacional, somado à industrialização e à urbanização, provocará uma demanda maior de água e terá sérias consequências para o meio ambiente”, afirmou.
IPS- A ONU alertou que mais de um bilhão de pessoas ainda sofrem escassez de água potável segura. Prevê-se que esta crise será solucionada ou irá piorar na próxima década, particularmente no contexto da mudança climática e de seu impacto negativo?
Ger- Informes de importantes centros de pesquisa e organizações internacionais nos dizem que, se os seres humanos não mudarem seu comportamento, desde hábitos pessoais até os processos industriais e a administração pública, teremos uma crise ainda maior em nossas mãos. Estamos em uma encruzilhada histórica. Temos a capacidade para reverter a tendência e criar uma nova realidade. As soluções estão à mão, como coletar água da chuva, melhorar os sistemas de armazenamento e conservação, aperfeiçoar os métodos de irrigação nos campos e desenvolver cultivos tolerantes às secas.
Estas devem estar acompanhadas de uma governabilidade suficientemente boa para procurar uma melhor administração dos recursos hídricos e conseguir maior acesso aos serviços para mais pessoas. É óbvio que um consumo desenfreado dos recursos naturais, especialmente da água, não pode continuar. Mas, temos de saber como e quais são as ferramentas para mudar as coisas. O que precisamos é de ação. Os governos, as companhias e os grupos da sociedade civil devem aproveitar o momento.
IPS- Deveria a ONU, e em especial o Conselho de Direitos Humanos, procurar um plano duradouro para considerar a água um direito humano básico?
Ger- O consumo mundial de água duplicou tão rápido quanto a população no último século. O aumento da demanda de água é constante quanto há um aumento da população, e multiplicou com a rápida urbanização. Garantir água segura para as pessoas está no coração dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU para o Milênio, fixados pelos 192 membros das Nações Unidas. A meta é reduzir pela metade o número de pessoas que carecem de acesso à água segura. Há três anos, o Quarto Fórum Mundial da Água no México pôs sobre a mesa o direito a este recurso. Os prefeitos, que ocupam a linha de frente político-administrativa para a água e o saneamento, expressaram de forma esmagadora seu apoio ao direito à água.
As declarações no México também mostraram que um grande apoio a essa idéia por parte de parlamentares, empresários, organizações não-governamentais, grupos de mulheres, igrejas e a sociedade civil em geral. Também significou a primeira vez que o direito à água foi discutido por ministros de diversos países em nível internacional. O CMA apresentou no México o Informe sobre o Direito à Água. Esse documento forneceu uma importante ferramenta para as pessoas que tentam desenvolver políticas nacionais. O informe também é uma grande contribuição ao trabalho do Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Na nova edição do fórum, em Istambul na próxima semana, o direito à água será novamente tema destacado da agenda. Esperamos ver compromissos sobre este assunto, principalmente de líderes políticos que podem fazer as coisas acontecerem em nível local. Muitos temas precisam ser resolvidos em níveis local e nacional. Para levar serviços de água e saneamento a mais pessoas de forma mais rápida devemos insistir no direito ao recurso. Também temos de redobrar esforços para encontrar soluções sobre as quais trabalhar em qualquer lugar onde se compartilha a água entre fronteiras nacionais. Devem ser feitos esforços bilaterais e multilaterais para encontrar soluções duradouras sobre como compartilhar a água.
IPS- Como os problemas podem ser resolvidos? Que papel pode ter o fórum em alertar o mundo sobre a crise de escassez mundial?
Ger- O fórum é um processo de três anos de diálogo e reflexão que culmina na mais importante reunião mundial sobre a água. São mais de 20 mil participantes, incluindo políticos, cientistas, profissionais e ativistas de todo o mundo. Ao trabalhar com uma ampla gama de atores no fórum, o CMA pode reunir grupos e interesses díspares para encontrar um campo em comum e soluções práticas. Os debates do fórum ajudam a definir o papel estratégico da água para o desenvolvimento, a qualidade de vida e a segurança. O fórum é organizado pela CMA em colaboração com a cidade e o país anfitriões, neste caso Istambul.
O encontro é precedido por um processo preparatório que envolve o que poderíamos chamar de diálogos sobre a água. Entre outras coisas, estes diálogos incorporam contribuintes regionais para tratar desafios específicos em diferentes partes do mundo. A intenção do fórum é fornecer uma plataforma onde seja possível construir sociedades nacionais, regionais e mundiais, os cientistas e cidadãos podem dar novas perspectivas sobre os problemas graves, os políticos e especialistas podem trocar idéias e desenvolver soluções, os líderes mundiais podem assinar acordos e a cobertura jornalística pode dar à água o destaque que merece no cenário internacional.
Um grande número de funcionários eleitos, incluindo, prefeitos, parlamentares, ministros e chefes de Estado, participam do fórum. Isto representa uma oportunidade única para pressionar no sentido de que uma sábia administração da água esteja mais acima na agenda política. Também há uma Conferência Ministerial, em torno da qual o CMA colabora estreitamente com o país anfitrião e a ONU. Em meio à voragem de toda esta atividade, no meu ponto de vista, ainda precisamos manter o olhar em duas simples metas: uma sábia administração dos recursos e o acesso à água e ao saneamento para todos.